Aqui estamos, ao fim de um ano velho, olhando adiante para o alvorecer de mais um ano “novo” e, uma vez mais, sinto-me obrigado a dizer algo significativo. (Esta mensagem irá, espero, cobrir todos os novos anos de 2026, do lunar ao solar e todos entre eles.)
Nesta época é costume oferecer presentes e palavras auspiciosas na esperança de que uma série de circunstâncias favoráveis venha abrir nossos caminhos pelos próximos doze meses. Tradicionalmente, existem incontáveis imagens auspiciosas que eu poderia escolher para lhes enviar, como a foto de uma bela flor ou um dos oito símbolos auspiciosos. Mas para ser franco, uma foto auspiciosa dos peixes dourados não significa tanto assim para mim. Eu preferiria enviar uma lembrança da melhor coisa que aconteceu no último ano. Você pode achar difícil de imaginar o que seria essa ‘melhor coisa’, especialmente considerando o pandemônio de insegurança que foi desencadeado pelos grandes e poderosos à medida que suas vidas confortáveis começaram a se esvair. Se esse for o caso, tente abrir seu coração e mente e olhar em uma direção diferente. Para além de todo esse alvoroço míope que domina as manchetes, há tanta beleza, inspiração e encorajamento a serem encontrados.
Para mim, ver as incríveis fotos e vídeos dos monges na Walking for Peace foi o que derreteu meu coração frio e orgulhoso. Pego-me chorando a cada vez que assisto ou leio sobre a jornada deles. Tantas pessoas se comoveram com esses monges. Um policial americano, corpulento e armado, se curvou humildemente diante de um monge para mostrar respeito. Pessoas de todas as idades e de todas as camadas sociais faziam filas nas ruas para oferecer aos monges gorros de lã, protetores labiais e até sanduíches. E os indígenas americanos que galoparam atrás dos monges para pedir bênçãos. Pode ser que essas pessoas nunca saibam quem são esses monges. Podem nunca aprender nada sobre o caminho escolhido por eles. Pode ser que nunca se dêem conta de que as vestes destes monges são o estandarte do Buddha. Ainda assim, só de ver os monges caminhando já lhes traz alegria.
A parte mais impressionante disso, para mim, é que simplesmente caminhando os monges plantaram uma semente em todos que os viram, criando uma conexão entre milhares de pessoas e o Buddha. Os monges alcançaram mais caminhando pelos Estados Unidos por dois meses do que lamas tibetanos alcançaram ensinando no ocidente por anos. Eu disse isso aos meus amigos e eles acharam que eu estava exagerando. Mas será que estou? Nos orgulhamos de ser objetivos, racionais e pragmáticos, mas todo nosso pensamento racional se esmigalha quando vislumbramos um monge caminhando na neve, e um sentimento inexplicável de profunda paz inunda nossas mentes e nossos corações. É esse sentimento de profunda paz que nos falta.
Frequentemente me perguntam, ‘Como posso ter uma vida com sentido?’ ‘Sentido’ não é um sentimento. ‘Sentido’ não é aquilo que chamam de felicidade ou satisfação – felicidade e satisfação vêm e vão. ‘Sentido’ não pode ser encontrado em oposição estridente ou ativismo, que não faz muito mais do que acorrentar a liberdade pessoal. Aqueles que gritam sobre liberdade frequentemente se tornam lenha para as grandes corporações. Encontramos sentido na vida ao assumir responsabilidade e nos dedicar a realizar algo ‘significativo’. Os monges decidiram simplesmente caminhar pela paz. Essa decisão importa tanto para eles que todo o resto é mero detalhe. ‘O sentido da vida’ é, portanto, algo que construímos nós mesmos.
O ato de apaziguar merece celebração – não a minha versão de paz, não a sua versão de paz, apenas paz. Estou feliz em poder compartilhar essa imagem com vocês. Se por um momento vocês sentirem o que eu sinto já valeu a pena.
No ano que chega, o ano do Cavalo de Fogo, muitos futuros amigos serão concebidos e muitos outros nascerão. Eu faço preces para que sua geração seja melhor que a nossa na tarefa de cuidar deste planeta.
Faço preces para que meus jovens amigos, aqueles que já nasceram neste mundo, aprendam a ser resilientes. Nessa era de megalomania e obsessão por selfies, eu rezo para que de vez em quando vocês cultivem empatia e se coloquem no lugar dos outros.
Meus amigos mais velhos, gente da minha idade, nem sempre tiveram o luxo de escolher direção na vida. Quando tivemos uma escolha, ao escolher uma opção tivemos que excluir outras automaticamente, tornando impossível vivenciar tudo na vida.
Rezo para que todos sejamos maduros o suficiente para aceitar a dor da ‘consciência’, que não é necessariamente ruim e frequentemente nos torna humildes. Aqueles cujas vidas são confortáveis demais raramente experimentam a boa fortuna de terem consciência plena e quase nunca são humildes. A humildade é uma qualidade que todos precisam agora. Em outras palavras, celebre a vida que você levou até agora e reze para conseguir aproveitar ao máximo a vida que lhe resta.
Para finalizar, do meu quarto no extremo oriente prostro-me em direção à América no ocidente, onde monges estão caminhando pela paz. Rezo por todas as crianças que perderam suas mães nas guerras infindáveis deste mundo. E para aqueles como eu, que são seguidores do Buddha, eu rezo para que nunca paremos de ansiar pela verdade.
—Dzongsar Jamyang Khyentse